Edgar Meu amor…
Por favor Edgar não me deixes assim, o que se passa entre nós, porque não telefonaste? Eu aqui à espera feita parva, nem ao cabeleireiro fui com medo que ligasses, fumei oito Mores seguidos, tenho a cabeça tonta de cigarros, já perguntei às Avarias se havia algum problema com o meu número e não há, já tentei entreter-me a pintar as unhas dos pés e borrei tudo, até nos calcanhares pus verniz, até na alcatifa, até no braço da cadeira, não foste ao emprego, não foste ao café, não foste ao clube, o que aconteceu Edgar? não é justo, não parece teu, não me deixes assim, dou voltas à cabeça a ver se percebo e não entendo, ainda ontem aqui vieste jantar ainda ontem me gabaste o ensopado de enguias, ainda ontem, no sofá, lembras-te?
Estes Difíceis Amores
Para ti...
To be or not to be
«Minha querida, se soubesses! Lembras-te da canção do Zé Mário? "O que eu andei p'ra aqui chegar..." Foi quase isso, um caminho longo e penoso, mas fi-lo parado. Três anos vivendo como um autómato cinzento - o que nem é difícil, tantos o fazem... -, apenas a memória a cores fortes. Porque à noite, em casa, no escuro, punha os auscultadores e pintava-nos obsessivamente com a música por moldura. E os quadros amontoavam-se na minha cabeça, tão límpidos como o génio agarotado do teu querido Mozart.
(...) Tocava à campainha, a voz no intercomunicador, riso escondido, "desço ou ainda sobes?" O ainda era tão prometedor...; "subo". O olhar maroto, "estás com muita fome?" Às vezes. A de ti, pelo contrário, gemia sempre alto nas entranhas, à medida que o crepúsculo da sala afagava esse andar de mulher madura, cruel de tão lento, sabendo-me na sombra maravilhada dos seus passos. (...) O sorriso, de tão aberto, substituía convite de mãos e boca. E tu à espera, maliciosa, eu a custo segurando as rédeas do desejo, (...). A cabeça inclinada para trás, o cabelo em liberdade pelo chão, o pescoço, longo e arqueado por solidariedade com os rins, à mercê da minha língua, escondendo gemidos que acabavam por se escapar, para meu alívio e orgulho infantis. Botão a botão, até os dedos se perderem por montes e vales, os teus por perto, às vezes ensinando-lhes o caminho, crispados ao anúncio da carícia desejada; e partindo, ligeiros, a libertar-me também de prisões o corpo, que se juntava à nudez completa e agradecida que vestia a alma. (...) A tua mão distraída, passeando pelo meu peito, cheio de um estranho cansaço, juvenil e impaciente, "estou de rastos e quero mais". Será isso o amor?
A propósito de ti...
«Somos felizes. Acabámos de pagar a casa em Outubro, fechámos a marquise, substituímos a alcatifa por tacos, nenhum de nós foi despedido, as prestações do Opel estão no fim. Somos felizes: preferimos a mesma novela, nunca discutimos por causa do comando, quando compras a TV Guia sublinhas a encarnado os programas que me interessam, lembras-te sempre da hora daquela série policial que eu gosto tanto com o preto cheio de anéis a dar cabo dos italianos da Máfia.
A solidão das mulheres divorciadas
«Aos fins-de-semana quando não saio com a minha prima Bé fico em casa a ver televisão. Ver televisão quer dizer regar as plantas da marquise, ler o horóscopo nas revistas, desfazer o tricô do domingo anterior, mudar de canal de 20 em 20 segundos e pensar em matar-me.
Elena e as Mãos dos Homens
Não fazia a minima ideia de quem era Armando da Silva Carvalho, mas o título deste livro encontrou os meus olhos, enquanto os percorria por uma estante na livraria Barata. Era uma frase sugestiva, que me fez pegar no livro e ler a contracapa:
"Há mulheres que adoram mascar coisas secas a qualquer hora do dia. Ou da noite. Pevides, grainhas de uva, amendoins, sementes de melão ou melancia. Esses pequeninos amargos de boca.
Seja o que for que seja seco.
Existe um certo erotismo nesse roer manso e paciente.
Sentadas num soalho coberto por mantas de artesanato, podem pensar em algo de oriental e meditativo. Mastigam pedacinhos de vida interior. Salivam minúsculos grãos de calma. Transformam com os dentes o ácido da vida e deixam-no ficar na língua, numa espera árabe.
- São afrodisíacas - dizia sempre a Rita a quem lhe apontava o vício. Um vício natural, biológico, puro.
Esmeralda não estava convencida."
A universalidade do texto fez-me sorrir. Apeteceu-me mais e resolvi comprar o livro. Raramente me decepciono com estes amores à primeira vista...
Li-o com vontade numas férias curtas que gozei em Junho e há algum tempo que estou para aqui escrever sobre ele. Hoje encontrei uns minutos, por isso, aqui vai:
Os meus problemas, Miguel Esteves Cardoso
Este livro compila uma série de crónicas publicadas no Expresso já há alguns anos atrás, em que Miguel Esteves Cardoso, mais do que analisar os seus problemas, analisa os problemas dos Portugueses em geral.
Revi-me numa série de situações e caricaturas, e sim, estes são também muitos dos meus problemas.
«O que se quer»
«Querer alguém, ou alguma coisa, é muito fácil. Mesmo assim, olhar e sentirmo-nos querer, sem pensar no que estamos a fazer, é uma coisa mais bonita do que se diz. Antes de vermos a pessoa, ou a coisa, não sabíamos que estávamos tão insatisfeitos. Porque não estávamos. Mas, de repente, vemo-la e assalta-nos a falta enorme que ela nos faz. Para não falar naquela que nos fez e para sempre há-de fazer. Como foi possível viver sem ela? Foi uma obscenidade. Querer é descobrir faltas secretas, ou inventá-las na magia do momento. Não há surpresa maior.
O que é bonito no querer é sentirmo-nos subitamente incompletos sem a coisa que queremos. Quanto mais bela ela nos parece, mais feios nos sentimos. Parte da força da nossa vontade vem da força com que se sente que ela nunca poderia querer-nos como nós a queremos. Querer é sempre a humilhação sublime de quem quer. Por que razão não nos sentimos inteiros quando queremos? É porque a outra pessoa, sem querer, levou a parte melhor que havia em nós, aquela que nos faz mais falta. É a parte de nós que olha por nós e nos reconcilia connosco. Quanto mais queremos outra pessoa, menos nos queremos a nós...
Amor
Sempre gostei de ler... Sempre vi os meus pais a lerem e à medida que fui crescendo, comecei a estranhar que a maioria dos meus amigos não lesse. Nunca consegui cativar ninguém para a leitura e entretanto desisti.
Há uns meses atrás conheci uma pessoa que nunca tinha lido um livro, mas como partilhámos a nossa vida um com o outro, eu partilhei também esta parte de mim, e pela primeira vez vi que alguém comprou um livro porque eu tanto falei deles. Melhor ainda, não um mas dois livros! (Sem contar com o que me ofereceu e que já aqui comentei).
Também lhe prometi oferecer um livro para que ele lesse numa longa viagem que fez, mas algumas adversidades impediram-me de cumprir essa promessa, e a tal viagem acabou por nos separar...
Agora que li o Amor do António Mega Ferreira não posso deixar de não partilhar esta declaração de amor com todos os que amam, amaram ou vão amar, tanto quanto eu...
«Algum dia eu haveria de entrar na normalidade dos que te amam. Amo-te. E dói escrevê-lo (que é pior, meu amor, do que dizê-lo). Amo-te, absoluta, impossível e fatalmente. E ouço, adolescente, uma música adolescente, para me lembrar de ti, porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te. E ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma que se quer ser devorada, e, neste caso, dor (tão deliciosamente insuportável) de amar sem sequência nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objecto que desgraçadamente amamos. Isto é uma carta de amor, e é possivelmente ridícula (prova maior de que é, realmente uma carta de amor), ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive a coragem de as enviar.
_____Viver todos os dias Cansa
O nome deste livro é genial. Apetece imediatamente comprá-lo, levá-lo para casa e lê-lo de uma vez só. Os títulos têm destas coisas. São um apetizer por excelência, e há que tirar partido disso.
Mais uma leitura deste livro de crónicas, de Pedro Paixão. Não será porventura o melhor dele, mas isso também não constitui nenhum demérito.
Escolhi este conto por ter sido aquele que mais me marcou na altura em que li o livro (há aproximadamente um mês e meio) e não por ser necessariamente o melhor, mas estou convencido de que transmite na perfeição o ambiente dos demais.
Peixe Vermelho
Eram três da tarde e, em vez de voltar para o escritório como tinha de ser, resolveu ir ao barbeiro. Não precisava de cortar o cabelo. Do que precisava era de parar para pensar. Há dias em que uma pessoa se sente tão confusa que não consegue continuar.
A vida é uma mistura de coisas que se repetem e de coisas que só acontecem uma vez. O que é estranho é poderem ser as mesmas. Um corte de cabelo, pelo contrário, é sempre irreversível. Talvez fosse por isso que uma visita ao barbeiro lhe surgia como um pequeno marco do qual, como de um banco a que se pudesse subir, se pudesse alcançar melhor por onde se passou e para onde se vai, ou então uma esquina donde convém voltar a olhar para trás uma última vez antes de a virar irremediavelmente. Ir ao barbeiro era uma maneira de pôr a cabeça em ordem.
_____JESUS – The Last Adventure of Franz Kafka
" Praga, 1920. Kafka, que sabe que tem poucos anos de vida diante dele, encontra um dia na Grande Praça da Cidade Velha o vagabundo Til, a quem ele vai chamar "Meu Filho". Este velho é extremamente cómico e juntos vão semear o riso e a confusão por toda a cidade. Uma noite, nas suas errâncias, encontram numa velha taberna da Praga Antiga o hermafrodita português Jesus, que trabalha num circo europeu. Kafka que pela primeira vez é feliz, apaixona-se imediatamente por ele.
Este livro, que é o hino de amor de dois excluídos, trata também os temas da Identidade, da Linguagem e da impossível felicidade que existe sobre a terra.
JESUS – The Last Adventure of Franz Kafka é também uma narrativa sobre a tragédia dos artistas que têm que sacrificar a sua vida para que a sua Obra se realize.
O resto são obrazinhas do Diabo e uma extraordinária descida aos infernos duma cidade fascinante feita por um escritor no melhor da sua forma e que se colocou no centro da sua aventura literária. "
-- fonte: Letras & Letras.
Manuel da Silva Ramos, JESUS – The Last Adventure of Franz Kafka, Lisboa, Fenda Edições, 2002 (Ficção).
Feira do Livro Manuseado
Na 3ª, depois de almoçar com uma amiga, tive que ir a uma retrosaria na Baixa (as retrosarias são cada vez mais escassas em Lisboa, mas na Baixa ainda sobrevivem), e foi quando me deparei com a tenda da Feira do Livro Manuseado, no meio da Rua Augusta.
Comprei quatro livros numa média de 6,75 Euros cada, e todos em óptimo estado! Desconfio até q nunca haviam sido manuseados. A saber, dois do Mia Couto (teve que ser!), Contos do Nascer da Terra e Estórias Abensonhadas, o Amor do António Mega Ferreira e Os meus Problemas do Miguel Esteves Cardoso.
Fui para casa terminar o livro que tinha em mãos para rapidamente começar a ler estes, e assim, posso-vos finalmente falar de Os Teles de Albergaria do Carlos Malheiro Dias.
Muito, meu amor
Sei que me torno chata a repetir autores... mas querem o quê? Desta vez não me deram hipótese!
Ofereceram-me na semana passada o Muito, meu amor do Pedro Paixão, porque sabiam que eu ia gostar com toda a certeza... e assim foi!
E gostei especialmente deste livro porque o Pedro Paixão escreve nele aquilo que eu queria escrever ou dizer a quem mo ofereceu. E é tão somente isto:
“É tão estranho conhecer uma pessoa. Tão difícil que parece impossível. Não existir e passar a existir: uma pessoa inteira, um mundo inteiro. Onde caberá um mundo inteiro neste mundo pequenino? Como é que se consegue? Como é que se faz?”
_____Nome a reter: Gonçalo M. Tavares
Acabei de ler Um Homem: Klaus Klump, o mais recente livro do jovem escritor Gonçalo M. Tavares. Foi também o primeiro livro que li, do autor, mas fiquei fã!
Gonçalo M. Tavares já publicou: Livro da Dança, O Senhor Valéry (pelo qual recebeu o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso), O homem ou é tonto ou é mulher, A colher de Samuel Beckett e outros textos (ambos adaptados para Teatro), O Senhor Henri e Um Homem: Klaus Klump. Recebeu ainda o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Investigações.
Um Homem: Klaus Klump, é um livro sobre os Homens, sobre a guerra, sobre a violência e, também sobre o Amor em várias das suas formas. Nas primeiras 10 ou 15 páginas andei meia perdida, a tentar perceber o estilo e a mensagem, julgando até que o livro seria “marado” de mais para os meus gostos... mas logo engrenei na história e foi num ápice que cheguei ao fim.
Espero cativá-los para a sua leitura com o que se segue...
2 em 1
É verdade que tenho andado meio desaparecida aqui do blog... mas não tenho parado de ler...
Por isso venho dar-vos conta dos últimos dois livros que li, e que recomendo vivamente:
Para variar, António Lobo Antunes e o seu velhinho livro O Conhecimento do Inferno. Andava para o ler há bastante tempo, e parece que foi desta.
O livro descreve-nos uma viagem Algarve-Sintra, em que o narrador nos conta algumas das suas histórias enquanto médico em início de carreira no Hospital Miguel Bombarda. A escrita é a habitual...
Deixo-vos uma frase que em nada resume o livro e até muito pouco tem a ver com ele... mas que se me ficou na cabeça...
“... sentámo-nos no restaurante, procurei com o meu sorriso a tua boca, e desatámos a rir, por cima do bife, a alegria de nos descobrirmos mutuamente, de nos inventarmos, como as crianças, um morse apaixonado de sinais.”
O segundo livro que me trouxe até aqui é o Equador do Miguel Sousa Tavares, que já foi aqui referido pelo Luís Ene (não sei fazer links, mas vejam nos arquivos, porque até tem foto!). Gostei muito, muito!!!
Quando me apercebi que estava no fim torci pela história de amor... cujo desfecho em nada me surpreendeu, mas que “estupidamente” queria diferente!
Também vos deixo uma breve transcrição:
“ – Nunca mais a vejo?
- A mim? Não sei. Quem sabe? Os que não morrem encontram-se, não é verdade?
(...)
- Não. Não basta estar vivo. Depende de como se está vivo. Não se encontra só o que se encontra, mas também o que se procura. Nós não somos folhas levadas pelo vento, não somos animais à deriva. Somos seres humanos, com uma vontade própria.”
Espero que fiquem com vontade de os ler!
Fantasia para dois coronéis e uma piscina
"Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu do Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. a país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.
_____Este é o meu corpo
É um cão quem primeiro encontra o cadáver, sob a chuva forte. Um dejecto sem calor, sem sopro, sem forma; rasgado, raspado, sem nome, sem roupas, sem sinais. Desde o inicio que sabemos que aquilo que jaz no alcatrão foi despojado de quase todas as marcas que o poderão identificar como um ser humano. Os traços fisionómicos que marcam mais fortemente a diferença, estão apagados por uma brutal erosão. O facto de só serem visíveis as sobrancelhas, acrescenta um dado simbólico. Elas representam uma referência que remete para a existência difusa da individualidade. (Muitas crianças desenham caras só com sobrancelhas o mesmo acontecendo em certas máscaras primitivas)
Uma carcaça. O animal segue o seu destino, levando consigo o gosto familiar da morte.
O mundo continua o seu girar cósmico. Enquanto uns seres morrem, outros nascem. António caminha pelas ruas molhadas a sonhar com o neto que acabou de ver, no hospital. É um homem solitário que fez da viuvez um pretexto para a ritualização da vida. Gosta de repetir os mesmos gestos, seguir os mesmos caminhos, cumprir as mesmas tarefas como se a rotina que o espera todos os dias lhe protegesse a existência. Ele é um ser vivo, de uma banalidade chocante, em contraste com a singularidade conferida pela morte, ao corpo que ele descobre.
A Escola do Paraíso
O Callante esteve alguns anos de copeiro num grande hotel da Baixa. O copeiro dum hotel é como o despenseiro a bordo dum navio: tem a chave dos estômagos, logo a das consciências.
Todos lhe iam comer à mão, o que, além do mais, lhe satisfazia o orgulho. Um dia fartou-se, deu por paus e por pedras, e largou a copa.
Em seguida, para descansar, fez-se porteiro dum hotel à rua do Príncipe, com casa de batota no terceiro andar. Quando entrava a rusga policial, o Callante, todo mesuras e falinhas mansas, erguia-se de boné agaloado na mão a saudar a Autoridade, e carregava com o pé no botão da campainha disfarçada junto do capacho, sob a mesa torneada, dando o alarme lá para cima.
A Escola do Paraíso é o melhor livro sobre a Lisboa do princípio do século, a Lisboa do Animatógrafo, do Rossio, do Hotel Francfort e dos terraços em flor, das mansardas no Outono, dos eléctricos rangendo e guinchando nas calhas, das desaparecidas figuras de varinas, engraxadores, floristas, vendedores de jornais, vendedeiras de hortaliça e outros vendedores. É um livro sobre um tempo que já não há e uma escrita como se deixou de ver.
A Escola do Paraíso, José Rodrigues Miguéis.
Os coxos dançam sozinhos de José Prata
" (…) vou para a fila de táxis das chegadas internacionais. Estamos num dia bom, há pouca gente, não tenho de esperar muito. É melhor deixar esta brasileira idiota passar à minha frente, quero apanhar um Mercedes Benz, são os meus preferidos. Quanto maior a cilindrada mais frustrado o motorista, é uma lei universal. Entremos pois, já sinto a adrenalina a correr.
- Então chefe, para onde vai ser? - pergunta a besta ao volante.
- Boa noite, já agora! É para a Encarnação.
- Encarnação? Deve estar a mangar comigo! A Encarnação é mesmo aqui ao lado!
- E então amigo, vai haver problema?
(Problemas tenho eu, e neste momento estou a tratá-los. Apanhar táxis no aeroporto é a minha terapia. Entro no primeiro Mercedes que aparece e depois encomendo uma corrida ao calhas, cujo preço total não exceda os quinhentos escudos, aqui não há pão para malucos. Hoje pedi Encarnação):
O Homem Duplicado, José Saramago
É com tristeza que escrevo este post...
Acabei ontem de ler O Homem Duplicado. Andei a arrastá-lo imenso tempo, sem grande pachorra para o acabar, mas ontem lá lhe dei o último empurrão.
Para quem, como eu, que adora Saramago, este livro é uma profunda desilusão... Não há nada de genial e há muito de enfastiante.
Eu não sou sou nenhuma especialista em literatura, nem sequer leio assim tanto como isso. Não quero ferir susceptibilidades, nem dizer mal apenas por dizer, quero apenas contar-vos aquilo que sinto.
Nunca, até agora um livro me tinha desiludido tanto, e por isso me sinto tão “magoada”. Quando nós gostamos muito de um autor e vamos ler um novo livro dele, colocamos sempre a fasquia num determinado nível, e é normal que por vezes sejamos surpreendidos. Talvez eu tenha colocado a fasquia muito alta, mas não foi apenas uma má surpresa que tive.
O Manual de Pintura e Caligrafia e o Levantado do Chão considero fruto das circunstâncias, mas gostei muito. As peças de Teatro A Noite e In Nomine Dei também me cativaram bastante.
Quanto a O Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis (meu favorito!), a Jangada de Pedra, a História do Cerco de Lisboa, o Evangelho Segundo Jesus Cristo e O Ensaio sobre a Cegueira são romances que li com entusiasmo e que serão sempre lidos e apreciados em qualquer altura pelo que narram e pela forma como foram escritos. São, quanto a mim, Grandes Livros.
O Todos os Nomes e A Caverna marcam um outro “registo”. São livros mais introspectivos e mais “individualistas”, mas dos quais também gostei muito (mas mais do segundo).
O Homem Duplicado parece-me querer ser um livro no seguimento destes dois últimos, e há “ambientes” familiares com o Todos os Nomes, mas não chega nem de perto nem de longe aos seus calcanhares.
O Homem Duplicado tem um bom tema mas que eu não exploraria nunca desta forma. Depois tem cerca de 200 páginas que, como se diz cá pelo Alentejo, para “encher chouriço”, e termina em poucas páginas com um final que me pareceu absolutamente disparatado.
Bem, já perceberam que me sinto mesmo “defraudada”, por isso vou ficar por aqui. E digo “defraudada” porque não esperava que fosse o Saramago a dar-me uma desilusão destas...
Quem tenha lido o livro faça-me o favor de me dizer do que gostou e porquê, pode ser que assim me passe esta impressão tão má.
Obrigada!
A Cobrição das Filhas
"Já nos é familiar a disposição em espelho dos poemas de valter hugo mãe. Os versos das páginas ímpares, invariavelmente alinhados pela margem direita, provocam o desvio do olhar graças a um efeito de insólita simetria com as páginas pares, parecendo sugerir um movimento de leitura a contrario sensu.
Este expediente anda todavia muito longe de pretender a criação de soluções concretistas, o que aliás redundaria em mero produto mecânico de uma forma ingénua de construção. Pelo contrário, ele visa forçar fisicamente uma determinada indisposição da leitura, susceptível de se moldar a um tipo de escrita em que a delicadeza ecfrástica das imagens, à Egon Schiele, convive harmoniosamente com a volúpia expressionista da distorção, da caricatura e do grotesco.
Os motivos do espelho e da margem simbolizam o que há de mais inconfundível na poesia de valter hugo mãe: a microscopia da imagem quebrada na margem dos espelhos, em contínuos efeitos de túnel que originam sucessivos poços de invisualidade. A imagem é margem - digamos imargem -, descentramento abissal do visível na dobra do lisível (…)"
Confusos? Eu também.
Mas vale a pena não ler este posfácio deste palavroso intelectualóide chamado Luís Adriano Carlos e sim dar uma vista de olhos ao livro do Valter Hugo Mãe:
A Cobrição das Filhas, Quasi Edições, 2002
Gin com Sarcasmo
No café-teatro d'A Barraca, à Terça-Feira à noite lê-se poesia, conforme prometia o blog do bar:
"Poesia com Changuito - Terça-feira - 23.36h
Vindo de uma longa digressão pelo interior da Suiça, de onde trouxe recuerdos e souvenirs bem mais impactantes que bombons e relógios, o pequeno irmão da moderna recitália lusitana regressa ao nosso bar para uma noite em que a poesia e o ilusionismo estarão de mãos dadas. A gerência pede perdão antecipadamente por qualquer estrangeirismo usado pelo recitador, afinal a nossa compreensão é total para quem, como ele, passou quinze, dos seus dezanove anos, entre Vaduz, Liechtenstein e Andorra-La-Vella, Andorra, disfarçado de Rato Mickey, engrandecendo o nome de Portugal."
Os dois volumes "Contos do Gin-Tonic", 1973 e "Novos contos do Gin-Tonic", 1978 perfizeram a totalidade das leituras de uma noite que divertiu e acrescentou alguma coisa a todos os presentes, relembrando que a poesia (mesmo a surrealista, como era o caso) não serve apenas minorias.
Os dias de Missirá
“Quantas vezes te aconteceu que, em relação aos outros, tenhas estado frequentemente - ou, melhor dizendo, quase sempre - no lugar errado ou no momento errado?
Deixa ver se consigo desenvolver a ideia com suficiente nitidez.
Raras vezes aquilo que nos atrai nos outros - ou no outro, se preferires - chega mais fundo do que aquela superfície confortante das coisas de que se fala quotidianamente. Depois vais-te dando conta de que essas coisas se complicam. Factos, intuições, percepções e suspeitas que interagem, relacionam, destroem e reedificam. O outro espessa-se, alarga-se, ganha outras, e quase sempre insuspeitadas dimensões, bem longe da dicromia inicial.
Não me atreveria a afirmar que é um processo gradual. Descontínuo sim, como quase tudo, aliás.
Se no começo tentaste seduzir - e repara que falo no sentido mais lato - capturar o outro na órbita daquilo que julgaste ser o seu principio de gravitação pessoal, com um perfil, uma palavra deixada cair ou algo de semellhante, mais tarde ou mais cedo és obrigado a constatar que um e outro têm massas distintas, velocidades diferentes. Um peso passado que em puro cálculo de probabilidades vos atira - quando muito - para trajectórias que apenas cíclica ou episodicamente se tornam secantes. Percebes o que quero dizer?
O resultado final é uma mistura de arritmia, assincronismo, topologia irónica e insuspeitada. A partir de um certo grau de convivência os desencontros são mais numerosos e mais pesados do que os encontros. Ou, pondo as coisas de outra maneira, tens uma consciência mais aguda dos momentos de divergência do que dos momentos de convergência. E a própria tomada de consciência dessa realidade, mesmo quando se converte em tentativas de ajustamento, de correcção, acaba por só agravar as coisas. Porque, habituado à tua massa específica, à tua velocidade, à inércia adquirida num tempo pretérito, dificilmente admitirás que os conceitos de certo e de errado, de bem e de mal, pouco ou nada têm a ver com as assincronias entre ti e o outro.”
in Os dias de Missirá
Vale a pena (re)ler
todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada.
ficaram só os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e da morte.
Os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e foram demasiados porque hoje são como o sangue no teu rosto, são como lágrimas.
sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, em cada hora, não irei negar isso.
não irei negar nunca que te amei. nem mesmo quando estiver deitado, nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a foder.
ultimamente não consigo dormir e não consigo acordar.
ontem, já muito de noite nas horas em que posso estar ainda mais sozinho, sentei-me ao lume e lembrei-me de quando ficávamos juntos à porta da tua avó e para as pessoas que passavam éramos namorados. dizíamos conversas só nossas e às vezes beijávamo-nos.
sentei-me ao lume e pensei no teu corpo quando te abraçava e pensei que talvez naquele momento um homem estivesse a ter prazer dentro de ti. hoje sentei-me parado com as mãos paradas, com o rosto parado e lembrei-me da tua pele tão suave, dos teus dedos bonitos, dos teus olhos de menina e penso que talvez neste momento esteja um homem a ter prazer dentro de ti.
in “A criança em ruínas”, do José Luís Peixoto, edições Quasi (2001)
Sanctum sanctorum
O livro da minha vida?
É fácil: Os dias de Missirá, do Manuel Lamas, edição da Dom Quixote.
E porquê? Ide e descobri por vós próprios.
Paixão!, Pedro
Os seus livros sabem sempre a pouco… assim que os começo, mesmo parando para saborear cada frase, já estou no fim, e chateia-me não haver mais para ler.
É difícil escolher um livro, uma crónica, um pequeno excerto que resuma porque gosto tanto de o ler,
(e não, ainda não li todos os seus livros. Como sei de antemão que vai ser frustrante chegar logo ao fim, ando numa de acumulação para poder ler uns quantos de seguida.)
mas digo-vos que frases como estas, talvez não resumam a sua escrita, mas resumem uma parte de mim…
Coca-Cola Killer de António Vitorino de Almeida
Muito bem escrito e com um humor delicioso de tão perverso, Coca-Cola Killer foi uma verdadeira surpresa. Não tanto por ter sido escrito pelo Maestro António Vitorino de Almeida, mas porque o título em nada me remetia para o que acabei por ler.
Trata-se de uma sátira divertida e inteligente sobre a hipocrisia e o cinismo a la lusitana, personificados num personagem fascisóide (Marcelino da Gama), que se aproveita do 25 de Abril para ascender na sua prezada carreira de Diplomata.
Ainda o Lobo Antunes...
E as suas fantásticas crónicas!
A não perder: “A Solidão das Mulheres Divorciadas”, “Os meus Domingos”, “A Propósito de Ti...”, “Edgar Meu Amor” e “Como Nós”.
É desta última que vos deixo isto:
"Espero por ti cá em baixo enquanto a paciência azul das ondas escreve o teu nome com gestos de alga na praia e um rosto de aguarela me fita, imóvel, de um segundo andar, de tal maneira real que decerto não existiu nunca um rosto tão espantado como o meu espanto de ninguém me responder se bato à porta da casa onde vivo e que me aperta os ombros como um casaco emprestado, espero por ti com a luzinha de um cigarro na língua a fim de que me reconheças na escuridão destas duas da tarde demasiado claras, espero por ti a tremer de não ter febre e despenteado pelo vento que não há, o cão afasta-se desiludido como tudo se afasta do meu corpo, mesmo a sombra enrodilhada de vergonha em torno dos sapatos e quando as sombras se envergonham de nós mais vale desistir, trancarmo-nos no quarto de banho e ficar a ver no espelho o rosto que não somos já, que não seremos mais, espero por ti a tremer como um namorado muito feio espera, à chuva, de crisântemos outonais na mão, a namorada também feia que se esqueceu dele, de nariz nas cortinas a assistir ao Domingo, espero por ti, e nisto o automóvel ancora no lancil e no banco traseiro, sozinha, o teu sorriso descobre-me e caminho ao teu encontro, a medo, de joelhos aflitos, para te explicar as girafas do Jardim Zoológico indiferentes ao estrondo dos altifalantes, tão ruidoso como o silêncio do meu amor por ti."
Os cus de Judas por António Lobo Antunes
Quanto a mim este é dos livros que mais prazer me deu a ler.
Demorei mais de uma hora a ler as primeiras quatro ou cinco páginas pois perdia-me e tinha que recomeçar de novo para perceber... mas assim que lhe apanhei o jeito, não era capaz de parar. É uma delícia ler um livro tão bem escrito! E é por isso mesmo que o recomendo a toda a gente.
Vou transcrever uma passagem um pouco longa, desculpem, mas que acho saborosíssima e que mostra as duas caras do personagem, um médico que tenta, ainda hoje, “arrumar” na sua cabeça o que viveu no Ultramar e que luta contra a solidão em que se tornou a sua vida.
Espero que gostem!
