Estes Difíceis Amores
Para ti...
To be or not to be
«Minha querida, se soubesses! Lembras-te da canção do Zé Mário? "O que eu andei p'ra aqui chegar..." Foi quase isso, um caminho longo e penoso, mas fi-lo parado. Três anos vivendo como um autómato cinzento - o que nem é difícil, tantos o fazem... -, apenas a memória a cores fortes. Porque à noite, em casa, no escuro, punha os auscultadores e pintava-nos obsessivamente com a música por moldura. E os quadros amontoavam-se na minha cabeça, tão límpidos como o génio agarotado do teu querido Mozart.
(...) Tocava à campainha, a voz no intercomunicador, riso escondido, "desço ou ainda sobes?" O ainda era tão prometedor...; "subo". O olhar maroto, "estás com muita fome?" Às vezes. A de ti, pelo contrário, gemia sempre alto nas entranhas, à medida que o crepúsculo da sala afagava esse andar de mulher madura, cruel de tão lento, sabendo-me na sombra maravilhada dos seus passos. (...) O sorriso, de tão aberto, substituía convite de mãos e boca. E tu à espera, maliciosa, eu a custo segurando as rédeas do desejo, (...). A cabeça inclinada para trás, o cabelo em liberdade pelo chão, o pescoço, longo e arqueado por solidariedade com os rins, à mercê da minha língua, escondendo gemidos que acabavam por se escapar, para meu alívio e orgulho infantis. Botão a botão, até os dedos se perderem por montes e vales, os teus por perto, às vezes ensinando-lhes o caminho, crispados ao anúncio da carícia desejada; e partindo, ligeiros, a libertar-me também de prisões o corpo, que se juntava à nudez completa e agradecida que vestia a alma. (...) A tua mão distraída, passeando pelo meu peito, cheio de um estranho cansaço, juvenil e impaciente, "estou de rastos e quero mais". Será isso o amor?
Os meus problemas, Miguel Esteves Cardoso
Este livro compila uma série de crónicas publicadas no Expresso já há alguns anos atrás, em que Miguel Esteves Cardoso, mais do que analisar os seus problemas, analisa os problemas dos Portugueses em geral.
Revi-me numa série de situações e caricaturas, e sim, estes são também muitos dos meus problemas.
«O que se quer»
«Querer alguém, ou alguma coisa, é muito fácil. Mesmo assim, olhar e sentirmo-nos querer, sem pensar no que estamos a fazer, é uma coisa mais bonita do que se diz. Antes de vermos a pessoa, ou a coisa, não sabíamos que estávamos tão insatisfeitos. Porque não estávamos. Mas, de repente, vemo-la e assalta-nos a falta enorme que ela nos faz. Para não falar naquela que nos fez e para sempre há-de fazer. Como foi possível viver sem ela? Foi uma obscenidade. Querer é descobrir faltas secretas, ou inventá-las na magia do momento. Não há surpresa maior.
O que é bonito no querer é sentirmo-nos subitamente incompletos sem a coisa que queremos. Quanto mais bela ela nos parece, mais feios nos sentimos. Parte da força da nossa vontade vem da força com que se sente que ela nunca poderia querer-nos como nós a queremos. Querer é sempre a humilhação sublime de quem quer. Por que razão não nos sentimos inteiros quando queremos? É porque a outra pessoa, sem querer, levou a parte melhor que havia em nós, aquela que nos faz mais falta. É a parte de nós que olha por nós e nos reconcilia connosco. Quanto mais queremos outra pessoa, menos nos queremos a nós...
Amor
Sempre gostei de ler... Sempre vi os meus pais a lerem e à medida que fui crescendo, comecei a estranhar que a maioria dos meus amigos não lesse. Nunca consegui cativar ninguém para a leitura e entretanto desisti.
Há uns meses atrás conheci uma pessoa que nunca tinha lido um livro, mas como partilhámos a nossa vida um com o outro, eu partilhei também esta parte de mim, e pela primeira vez vi que alguém comprou um livro porque eu tanto falei deles. Melhor ainda, não um mas dois livros! (Sem contar com o que me ofereceu e que já aqui comentei).
Também lhe prometi oferecer um livro para que ele lesse numa longa viagem que fez, mas algumas adversidades impediram-me de cumprir essa promessa, e a tal viagem acabou por nos separar...
Agora que li o Amor do António Mega Ferreira não posso deixar de não partilhar esta declaração de amor com todos os que amam, amaram ou vão amar, tanto quanto eu...
«Algum dia eu haveria de entrar na normalidade dos que te amam. Amo-te. E dói escrevê-lo (que é pior, meu amor, do que dizê-lo). Amo-te, absoluta, impossível e fatalmente. E ouço, adolescente, uma música adolescente, para me lembrar de ti, porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te. E ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma que se quer ser devorada, e, neste caso, dor (tão deliciosamente insuportável) de amar sem sequência nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objecto que desgraçadamente amamos. Isto é uma carta de amor, e é possivelmente ridícula (prova maior de que é, realmente uma carta de amor), ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive a coragem de as enviar.
_____Feira do Livro Manuseado
Na 3ª, depois de almoçar com uma amiga, tive que ir a uma retrosaria na Baixa (as retrosarias são cada vez mais escassas em Lisboa, mas na Baixa ainda sobrevivem), e foi quando me deparei com a tenda da Feira do Livro Manuseado, no meio da Rua Augusta.
Comprei quatro livros numa média de 6,75 Euros cada, e todos em óptimo estado! Desconfio até q nunca haviam sido manuseados. A saber, dois do Mia Couto (teve que ser!), Contos do Nascer da Terra e Estórias Abensonhadas, o Amor do António Mega Ferreira e Os meus Problemas do Miguel Esteves Cardoso.
Fui para casa terminar o livro que tinha em mãos para rapidamente começar a ler estes, e assim, posso-vos finalmente falar de Os Teles de Albergaria do Carlos Malheiro Dias.
Muito, meu amor
Sei que me torno chata a repetir autores... mas querem o quê? Desta vez não me deram hipótese!
Ofereceram-me na semana passada o Muito, meu amor do Pedro Paixão, porque sabiam que eu ia gostar com toda a certeza... e assim foi!
E gostei especialmente deste livro porque o Pedro Paixão escreve nele aquilo que eu queria escrever ou dizer a quem mo ofereceu. E é tão somente isto:
“É tão estranho conhecer uma pessoa. Tão difícil que parece impossível. Não existir e passar a existir: uma pessoa inteira, um mundo inteiro. Onde caberá um mundo inteiro neste mundo pequenino? Como é que se consegue? Como é que se faz?”
_____Nome a reter: Gonçalo M. Tavares
Acabei de ler Um Homem: Klaus Klump, o mais recente livro do jovem escritor Gonçalo M. Tavares. Foi também o primeiro livro que li, do autor, mas fiquei fã!
Gonçalo M. Tavares já publicou: Livro da Dança, O Senhor Valéry (pelo qual recebeu o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso), O homem ou é tonto ou é mulher, A colher de Samuel Beckett e outros textos (ambos adaptados para Teatro), O Senhor Henri e Um Homem: Klaus Klump. Recebeu ainda o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Investigações.
Um Homem: Klaus Klump, é um livro sobre os Homens, sobre a guerra, sobre a violência e, também sobre o Amor em várias das suas formas. Nas primeiras 10 ou 15 páginas andei meia perdida, a tentar perceber o estilo e a mensagem, julgando até que o livro seria “marado” de mais para os meus gostos... mas logo engrenei na história e foi num ápice que cheguei ao fim.
Espero cativá-los para a sua leitura com o que se segue...
2 em 1
É verdade que tenho andado meio desaparecida aqui do blog... mas não tenho parado de ler...
Por isso venho dar-vos conta dos últimos dois livros que li, e que recomendo vivamente:
Para variar, António Lobo Antunes e o seu velhinho livro O Conhecimento do Inferno. Andava para o ler há bastante tempo, e parece que foi desta.
O livro descreve-nos uma viagem Algarve-Sintra, em que o narrador nos conta algumas das suas histórias enquanto médico em início de carreira no Hospital Miguel Bombarda. A escrita é a habitual...
Deixo-vos uma frase que em nada resume o livro e até muito pouco tem a ver com ele... mas que se me ficou na cabeça...
“... sentámo-nos no restaurante, procurei com o meu sorriso a tua boca, e desatámos a rir, por cima do bife, a alegria de nos descobrirmos mutuamente, de nos inventarmos, como as crianças, um morse apaixonado de sinais.”
O segundo livro que me trouxe até aqui é o Equador do Miguel Sousa Tavares, que já foi aqui referido pelo Luís Ene (não sei fazer links, mas vejam nos arquivos, porque até tem foto!). Gostei muito, muito!!!
Quando me apercebi que estava no fim torci pela história de amor... cujo desfecho em nada me surpreendeu, mas que “estupidamente” queria diferente!
Também vos deixo uma breve transcrição:
“ – Nunca mais a vejo?
- A mim? Não sei. Quem sabe? Os que não morrem encontram-se, não é verdade?
(...)
- Não. Não basta estar vivo. Depende de como se está vivo. Não se encontra só o que se encontra, mas também o que se procura. Nós não somos folhas levadas pelo vento, não somos animais à deriva. Somos seres humanos, com uma vontade própria.”
Espero que fiquem com vontade de os ler!
O Homem Duplicado, José Saramago
É com tristeza que escrevo este post...
Acabei ontem de ler O Homem Duplicado. Andei a arrastá-lo imenso tempo, sem grande pachorra para o acabar, mas ontem lá lhe dei o último empurrão.
Para quem, como eu, que adora Saramago, este livro é uma profunda desilusão... Não há nada de genial e há muito de enfastiante.
Eu não sou sou nenhuma especialista em literatura, nem sequer leio assim tanto como isso. Não quero ferir susceptibilidades, nem dizer mal apenas por dizer, quero apenas contar-vos aquilo que sinto.
Nunca, até agora um livro me tinha desiludido tanto, e por isso me sinto tão “magoada”. Quando nós gostamos muito de um autor e vamos ler um novo livro dele, colocamos sempre a fasquia num determinado nível, e é normal que por vezes sejamos surpreendidos. Talvez eu tenha colocado a fasquia muito alta, mas não foi apenas uma má surpresa que tive.
O Manual de Pintura e Caligrafia e o Levantado do Chão considero fruto das circunstâncias, mas gostei muito. As peças de Teatro A Noite e In Nomine Dei também me cativaram bastante.
Quanto a O Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis (meu favorito!), a Jangada de Pedra, a História do Cerco de Lisboa, o Evangelho Segundo Jesus Cristo e O Ensaio sobre a Cegueira são romances que li com entusiasmo e que serão sempre lidos e apreciados em qualquer altura pelo que narram e pela forma como foram escritos. São, quanto a mim, Grandes Livros.
O Todos os Nomes e A Caverna marcam um outro “registo”. São livros mais introspectivos e mais “individualistas”, mas dos quais também gostei muito (mas mais do segundo).
O Homem Duplicado parece-me querer ser um livro no seguimento destes dois últimos, e há “ambientes” familiares com o Todos os Nomes, mas não chega nem de perto nem de longe aos seus calcanhares.
O Homem Duplicado tem um bom tema mas que eu não exploraria nunca desta forma. Depois tem cerca de 200 páginas que, como se diz cá pelo Alentejo, para “encher chouriço”, e termina em poucas páginas com um final que me pareceu absolutamente disparatado.
Bem, já perceberam que me sinto mesmo “defraudada”, por isso vou ficar por aqui. E digo “defraudada” porque não esperava que fosse o Saramago a dar-me uma desilusão destas...
Quem tenha lido o livro faça-me o favor de me dizer do que gostou e porquê, pode ser que assim me passe esta impressão tão má.
Obrigada!
Paixão!, Pedro
Os seus livros sabem sempre a pouco… assim que os começo, mesmo parando para saborear cada frase, já estou no fim, e chateia-me não haver mais para ler.
É difícil escolher um livro, uma crónica, um pequeno excerto que resuma porque gosto tanto de o ler,
(e não, ainda não li todos os seus livros. Como sei de antemão que vai ser frustrante chegar logo ao fim, ando numa de acumulação para poder ler uns quantos de seguida.)
mas digo-vos que frases como estas, talvez não resumam a sua escrita, mas resumem uma parte de mim…
Ainda o Lobo Antunes...
E as suas fantásticas crónicas!
A não perder: “A Solidão das Mulheres Divorciadas”, “Os meus Domingos”, “A Propósito de Ti...”, “Edgar Meu Amor” e “Como Nós”.
É desta última que vos deixo isto:
"Espero por ti cá em baixo enquanto a paciência azul das ondas escreve o teu nome com gestos de alga na praia e um rosto de aguarela me fita, imóvel, de um segundo andar, de tal maneira real que decerto não existiu nunca um rosto tão espantado como o meu espanto de ninguém me responder se bato à porta da casa onde vivo e que me aperta os ombros como um casaco emprestado, espero por ti com a luzinha de um cigarro na língua a fim de que me reconheças na escuridão destas duas da tarde demasiado claras, espero por ti a tremer de não ter febre e despenteado pelo vento que não há, o cão afasta-se desiludido como tudo se afasta do meu corpo, mesmo a sombra enrodilhada de vergonha em torno dos sapatos e quando as sombras se envergonham de nós mais vale desistir, trancarmo-nos no quarto de banho e ficar a ver no espelho o rosto que não somos já, que não seremos mais, espero por ti a tremer como um namorado muito feio espera, à chuva, de crisântemos outonais na mão, a namorada também feia que se esqueceu dele, de nariz nas cortinas a assistir ao Domingo, espero por ti, e nisto o automóvel ancora no lancil e no banco traseiro, sozinha, o teu sorriso descobre-me e caminho ao teu encontro, a medo, de joelhos aflitos, para te explicar as girafas do Jardim Zoológico indiferentes ao estrondo dos altifalantes, tão ruidoso como o silêncio do meu amor por ti."
Os cus de Judas por António Lobo Antunes
Quanto a mim este é dos livros que mais prazer me deu a ler.
Demorei mais de uma hora a ler as primeiras quatro ou cinco páginas pois perdia-me e tinha que recomeçar de novo para perceber... mas assim que lhe apanhei o jeito, não era capaz de parar. É uma delícia ler um livro tão bem escrito! E é por isso mesmo que o recomendo a toda a gente.
Vou transcrever uma passagem um pouco longa, desculpem, mas que acho saborosíssima e que mostra as duas caras do personagem, um médico que tenta, ainda hoje, “arrumar” na sua cabeça o que viveu no Ultramar e que luta contra a solidão em que se tornou a sua vida.
Espero que gostem!
