O Oráculo de Jamais


"Ora! O mimo estraga os putos, essa é que é essa.
Não se deve dar mimo aos putos; nem aos putos nem aos cães. Aguardente e lambadas é que devia ser, para os putos aprenderem bem cedo a saber o que é a verdadeira vida. A minha mulher estraga os meus putos com mimo, está a fazer deles uns larilas, uns frangos de aviário. Leitinho, rebuçadinhos, fortificantezinhos, agasalhozinhos... O resultado vê-se...
Então, o Ruca... Basta uma aragem de nada e desata logo a tossir, cheio de febre. Deviam aprender todos com este desgraçado, especialmente o Ruca, que está um mimalho de fazer nojo.
Mal chegue a Lisboa hei-de puxar as orelhas ao Ruca. E quando ele ganir, com aquela voz enjoada de larila, a pedir-me dinheiro para pastilha elástica, mando-lhe uma lambada que vai de focinho ao tapete... ai mando, essa é que é essa! E se a senhora minha esposa fizer o favor de refilar, como é costume, eu só lhe pergunto: Queres murro ou lambada, minha flor?"

Altino do Tojal, O Oráculo de Jamais.

Um livro fantástico, que li quando tinha uns 12 anos e que quis sempre voltar a reler. Infelizmente, até há bem pouco tempo confundia o titulo com O que diz Molero, vá-se lá a saber porquê..


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Publicado por Alexandre em outubro 24, 2003 às 05:00 PM
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O escafandro e a borboleta


Jean-Dominique Bauby, nascido em 1952, pai de dois filhos, era redactor-chefe da revista francesa Elle quando foi vítima de um locked-in syndrome, uma doença rara, que o deixou lúcido intelectualmente, mas paralisado por completo, só podendo respirar e comer por meios artificiais e mover o olho esquerdo.

Com este olho piscava uma vez para dizer sim e duas vezes para dizer não. Com ele chamava também a atenção do seu visitante para as letras do alfabeto, formando palavras, frases, páginas inteiras. Assim escreveu este livro: todas as manhãs, durante semanas, decorou as suas páginas antes de ditá-las, depois de as ter corrigido mentalmente durante a noite.

"Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. O meu quarto sai lentamente da penumbra. Observo pormenorizadamente as fotografias dos meus queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, um pequeno ciclista de folha enviado por um camarada na véspera do Paris-Roubaix, e o cavalete que sustenta a cama onde estou incrustado há seis meses como um bernardo-eremita sobre o seu rochedo.

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Publicado por Alexandre em outubro 24, 2003 às 04:57 PM
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Gin com Sarcasmo


No café-teatro d'A Barraca, à Terça-Feira à noite lê-se poesia, conforme prometia o blog do bar:

"Poesia com Changuito - Terça-feira - 23.36h

Vindo de uma longa digressão pelo interior da Suiça, de onde trouxe recuerdos e souvenirs bem mais impactantes que bombons e relógios, o pequeno irmão da moderna recitália lusitana regressa ao nosso bar para uma noite em que a poesia e o ilusionismo estarão de mãos dadas. A gerência pede perdão antecipadamente por qualquer estrangeirismo usado pelo recitador, afinal a nossa compreensão é total para quem, como ele, passou quinze, dos seus dezanove anos, entre Vaduz, Liechtenstein e Andorra-La-Vella, Andorra, disfarçado de Rato Mickey, engrandecendo o nome de Portugal."

Os dois volumes "Contos do Gin-Tonic", 1973 e "Novos contos do Gin-Tonic", 1978 perfizeram a totalidade das leituras de uma noite que divertiu e acrescentou alguma coisa a todos os presentes, relembrando que a poesia (mesmo a surrealista, como era o caso) não serve apenas minorias.

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Publicado por Tiago P. em outubro 15, 2003 às 03:08 PM
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Estórias que fazem a História


João Ubaldo Ribeiro no livro Viva o Povo Brasileiro, fala-nos de personagens que lutaram e que construíram o Brasil.
Conta-nos as suas vidas, os seus feitos, as suas mudanças.
Eu gosto particularmente de livros com finais definidos, em que conhecemos o fim da vida dos personagens e não o fim de apenas um ciclo com a fatídica frase “E viveram felizes para sempre…” (até pela ridicularidade e impossibilidade dessa frase).
No Viva o Povo Brasileiro, descobrimos as pessoas “simples” como “heróis” e aprendemos com as suas estórias, como esta:

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Publicado por Mafalda em outubro 10, 2003 às 04:26 PM
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Os dias de Missirá


“Quantas vezes te aconteceu que, em relação aos outros, tenhas estado frequentemente - ou, melhor dizendo, quase sempre - no lugar errado ou no momento errado?

Deixa ver se consigo desenvolver a ideia com suficiente nitidez.

Raras vezes aquilo que nos atrai nos outros - ou no outro, se preferires - chega mais fundo do que aquela superfície confortante das coisas de que se fala quotidianamente. Depois vais-te dando conta de que essas coisas se complicam. Factos, intuições, percepções e suspeitas que interagem, relacionam, destroem e reedificam. O outro espessa-se, alarga-se, ganha outras, e quase sempre insuspeitadas dimensões, bem longe da dicromia inicial.

Não me atreveria a afirmar que é um processo gradual. Descontínuo sim, como quase tudo, aliás.

Se no começo tentaste seduzir - e repara que falo no sentido mais lato - capturar o outro na órbita daquilo que julgaste ser o seu principio de gravitação pessoal, com um perfil, uma palavra deixada cair ou algo de semellhante, mais tarde ou mais cedo és obrigado a constatar que um e outro têm massas distintas, velocidades diferentes. Um peso passado que em puro cálculo de probabilidades vos atira - quando muito - para trajectórias que apenas cíclica ou episodicamente se tornam secantes. Percebes o que quero dizer?

O resultado final é uma mistura de arritmia, assincronismo, topologia irónica e insuspeitada. A partir de um certo grau de convivência os desencontros são mais numerosos e mais pesados do que os encontros. Ou, pondo as coisas de outra maneira, tens uma consciência mais aguda dos momentos de divergência do que dos momentos de convergência. E a própria tomada de consciência dessa realidade, mesmo quando se converte em tentativas de ajustamento, de correcção, acaba por só agravar as coisas. Porque, habituado à tua massa específica, à tua velocidade, à inércia adquirida num tempo pretérito, dificilmente admitirás que os conceitos de certo e de errado, de bem e de mal, pouco ou nada têm a ver com as assincronias entre ti e o outro.”


in Os dias de Missirá


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Publicado por Alexandre em outubro 09, 2003 às 05:38 PM
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Vale a pena (re)ler


todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada.
ficaram só os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e da morte.

Os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e foram demasiados porque hoje são como o sangue no teu rosto, são como lágrimas.

sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, em cada hora, não irei negar isso.

não irei negar nunca que te amei. nem mesmo quando estiver deitado, nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a foder.

ultimamente não consigo dormir e não consigo acordar.

ontem, já muito de noite nas horas em que posso estar ainda mais sozinho, sentei-me ao lume e lembrei-me de quando ficávamos juntos à porta da tua avó e para as pessoas que passavam éramos namorados. dizíamos conversas só nossas e às vezes beijávamo-nos.

sentei-me ao lume e pensei no teu corpo quando te abraçava e pensei que talvez naquele momento um homem estivesse a ter prazer dentro de ti. hoje sentei-me parado com as mãos paradas, com o rosto parado e lembrei-me da tua pele tão suave, dos teus dedos bonitos, dos teus olhos de menina e penso que talvez neste momento esteja um homem a ter prazer dentro de ti.

in “A criança em ruínas”, do José Luís Peixoto, edições Quasi (2001)


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Publicado por Alexandre em outubro 09, 2003 às 05:03 PM
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Sanctum sanctorum


O livro da minha vida?

É fácil: Os dias de Missirá, do Manuel Lamas, edição da Dom Quixote.

E porquê? Ide e descobri por vós próprios.


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Publicado por Alexandre em outubro 07, 2003 às 05:53 PM
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O Homem Sem Qualidades, Robert Musil


Na verdade, este é (de certa forma) um post por antecipação.

Decorre no Mercado da Ribeira a festa do livro até dia 15 deste mês. Passei por lá hoje e, apesar de ter começado só ontem, grande parte dos melhores títulos já tinha sido alvo de muita escolha.

Mas voltando um pouco atrás, no dia mundial do livro, vi o Eduardo Prado Coelho na SIC notícias a falar sobre a selecção de livros que lhe tinham "encomendado". Trouxe apenas títulos de autores portugueses e fez um resumo breve dos pontos altos de cada um.

No final da rubrica, depois de se ter falado de outros livros e do "estado do livro" em Portugal, o jornalista pediu-lhe que elegesse "O" livro da sua vida. EPC hesitou, mas perante a insistência do pivot acabou por dizer: "talvez O Homem Sem Qualidades do Musil".

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Publicado por Tiago P. em outubro 05, 2003 às 03:04 PM
Arquivado em Livros Estrangeiros