Paixão!, Pedro
Os seus livros sabem sempre a pouco… assim que os começo, mesmo parando para saborear cada frase, já estou no fim, e chateia-me não haver mais para ler.
É difícil escolher um livro, uma crónica, um pequeno excerto que resuma porque gosto tanto de o ler,
(e não, ainda não li todos os seus livros. Como sei de antemão que vai ser frustrante chegar logo ao fim, ando numa de acumulação para poder ler uns quantos de seguida.)
mas digo-vos que frases como estas, talvez não resumam a sua escrita, mas resumem uma parte de mim…
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Ainda o Lobo Antunes...
E as suas fantásticas crónicas!
A não perder: “A Solidão das Mulheres Divorciadas”, “Os meus Domingos”, “A Propósito de Ti...”, “Edgar Meu Amor” e “Como Nós”.
É desta última que vos deixo isto:
"Espero por ti cá em baixo enquanto a paciência azul das ondas escreve o teu nome com gestos de alga na praia e um rosto de aguarela me fita, imóvel, de um segundo andar, de tal maneira real que decerto não existiu nunca um rosto tão espantado como o meu espanto de ninguém me responder se bato à porta da casa onde vivo e que me aperta os ombros como um casaco emprestado, espero por ti com a luzinha de um cigarro na língua a fim de que me reconheças na escuridão destas duas da tarde demasiado claras, espero por ti a tremer de não ter febre e despenteado pelo vento que não há, o cão afasta-se desiludido como tudo se afasta do meu corpo, mesmo a sombra enrodilhada de vergonha em torno dos sapatos e quando as sombras se envergonham de nós mais vale desistir, trancarmo-nos no quarto de banho e ficar a ver no espelho o rosto que não somos já, que não seremos mais, espero por ti a tremer como um namorado muito feio espera, à chuva, de crisântemos outonais na mão, a namorada também feia que se esqueceu dele, de nariz nas cortinas a assistir ao Domingo, espero por ti, e nisto o automóvel ancora no lancil e no banco traseiro, sozinha, o teu sorriso descobre-me e caminho ao teu encontro, a medo, de joelhos aflitos, para te explicar as girafas do Jardim Zoológico indiferentes ao estrondo dos altifalantes, tão ruidoso como o silêncio do meu amor por ti."
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Os cus de Judas por António Lobo Antunes
Quanto a mim este é dos livros que mais prazer me deu a ler.
Demorei mais de uma hora a ler as primeiras quatro ou cinco páginas pois perdia-me e tinha que recomeçar de novo para perceber... mas assim que lhe apanhei o jeito, não era capaz de parar. É uma delícia ler um livro tão bem escrito! E é por isso mesmo que o recomendo a toda a gente.
Vou transcrever uma passagem um pouco longa, desculpem, mas que acho saborosíssima e que mostra as duas caras do personagem, um médico que tenta, ainda hoje, “arrumar” na sua cabeça o que viveu no Ultramar e que luta contra a solidão em que se tornou a sua vida.
Espero que gostem!
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A Condição Humana de André Malraux
Ainda no rescaldo do 11 de Setembro...
Não podia deixar de falar neste livro uma vez que o li na altura do 11 de Setembro. Desde aí penso constantemente nele. Basta ligar a televisão e ouvir que mais um palestiniano se fez explodir num autocarro, e já está a minha cabeça a fazer associações ao Kyo, Katow e Tchen (personagens deste livro).
Portanto, apesar do livro já ser velhinho (foi publicado em 1933) encontra-se cada vez mais actual.
Há personagens muito distintas por isso os temas abordados por cada um são também eles variados (amor, homens vs mulheres, vaidade, cobardia, inteligência, solidão, sofrimento, ideais...) mas une-os o medo e a morte (e o medo da morte). E une-os também a pergunta fatídica: qual o sentido da vida? Respostas... pois, cada um vai encontrando as suas...
Como estamos na data em que estamos, deixo-vos duas pequenas passagens que possam deixar-vos curiosos, mas o livro é muito, muito mais que isto e quanto a mim vale toda a pena.
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