Amor
Sempre gostei de ler... Sempre vi os meus pais a lerem e à medida que fui crescendo, comecei a estranhar que a maioria dos meus amigos não lesse. Nunca consegui cativar ninguém para a leitura e entretanto desisti.
Há uns meses atrás conheci uma pessoa que nunca tinha lido um livro, mas como partilhámos a nossa vida um com o outro, eu partilhei também esta parte de mim, e pela primeira vez vi que alguém comprou um livro porque eu tanto falei deles. Melhor ainda, não um mas dois livros! (Sem contar com o que me ofereceu e que já aqui comentei).
Também lhe prometi oferecer um livro para que ele lesse numa longa viagem que fez, mas algumas adversidades impediram-me de cumprir essa promessa, e a tal viagem acabou por nos separar...
Agora que li o Amor do António Mega Ferreira não posso deixar de não partilhar esta declaração de amor com todos os que amam, amaram ou vão amar, tanto quanto eu...
«Algum dia eu haveria de entrar na normalidade dos que te amam. Amo-te. E dói escrevê-lo (que é pior, meu amor, do que dizê-lo). Amo-te, absoluta, impossível e fatalmente. E ouço, adolescente, uma música adolescente, para me lembrar de ti, porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te. E ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma que se quer ser devorada, e, neste caso, dor (tão deliciosamente insuportável) de amar sem sequência nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objecto que desgraçadamente amamos. Isto é uma carta de amor, e é possivelmente ridícula (prova maior de que é, realmente uma carta de amor), ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive a coragem de as enviar.
«Não percebes porque é que não te falo? Ainda não percebes que, na personagem que de mim eu enceno, não cabe a ameaça de uma derrota, a antecipação do desencanto, a sombra de um vexame? Não te falo, para não saber que o que eu te digo é apenas a forma contida de te dizer outra coisa, mas que essa coisa não é do teu mundo, nem do mundo que eu construí, nem do precário mundo que a nossa fragilíssima ternura mútua arquitectou. E tudo isto é literário, eu sei, mas – que queres? -, a literatura é o melhor de mim e é o melhor de mim que vive dentro da minha cabeça quando estou contigo.
«E depois, afastamo-nos. Beijo-te a correr, não sei se já reparaste, e quase fujo, porque sair do pé de ti é regressar ao que não és tu, o teu olhar e as tuas mãos, a tua alma e a tua voz, e isso, meu amor, transformou-se no insuportável intervalo entre dois encontros.
«Esta carta de amor é um excesso (e isso prova superiormente que é uma carta de amor): eu amo não a ideia de amar-te (durante muito tempo, eu julguei que era apenas isso), mas a ideia de perder-me no meu amor por ti. E mesmo amar-te é um excesso, porque tudo aconselharia que eu me limitasse a mitificar-te, que é a melhor forma de evitarmos enfrentar a realidade.
«Porque a realidade, aqui, é como uma dor difusa, tu sabes como é, um incómodo ainda não localizado, que progressivamente se vai definindo e acertando, até que, insuportavelmente nítida, a sua imagem se nos impõe como uma evidência. A minha dor é que eu comecei a amar-te, sem o saber, durante aquele breve período de tempo em que sair de casa era a promessa reconfortante de ver-te e falar contigo. Eu não sabia, repito, mas o tempo ajudou-me a definir essa pequena dor, tão secretamente pavorosa: cada vez que estou contigo (cada vez mais, meu amor, cada vez mais) é como se a minha vida se virasse do avesso. E é verdade, é cada vez mais verdade, que, quando penso nas coisas que ainda me falta fazer na vida, é em ti que penso. E tenho medo, como um animal que instintivamente foge do que sabe não poder atingir.
«Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim.
«Há uns anos, este seria o momento de desmontar o discurso desta carta, de te mostrar os subtis mecanismos da alma e da máscara, de desdizer ironicamente o que já disse, de insinuar que, afinal, as-coisas-talvez-não-sejam-exactamente-assim. Mas as coisas são exactamente assim, e a carta, que poderia transformar-se num confortável exercício paródico, é, inevitavelmente, uma agonia e um embaraço. Esta carta é um acto de puro egoísmo, que eu até talvez nem tivesse o direito de praticar. É-te incómoda, necessariamente, e isso bastaria para que eu me abstivesse de a enviar, dentro de um envelope azul. Mas o azul fica-te tão bem, e as cores todas ficam em ti como tu ficas no mundo: exactamente.
«Mas, repito: esta carta é um acto de puro egoísmo, é como se não tivesse destinatário. E, no entanto, é preciso enviá-la, para que seja uma carta de amor, para que faça sentido como carta. Para que seja amor. Mas podemos imaginar uma saída elegante: para que possas conservá-la como pura carta de amor, quero eu dizer, sem o embaraço de saberes que ela te foi escrita por alguém que não amas, não a assino. Dou-te tudo: até a hipótese de esta carta não ter sido escrita por mim.
«(E não, esta carta não pode ter sido escrita por mim. És tu – em mim – que me faz escrever o que eu não escrevo. E isso é – de novo – o melhor de mim.)»
Para quem for por estes dias à Feira do Livro, deverá poder encontrar este pequeno livro, na Assírio&Alvim. E que agradável surpresa seria encontrar alguém a comprá-lo!
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Maf... Acabei de ler o teu post e terminei com um enorme suspiro...saiu assim... sem pedir! Por coincidência olhei para um cartaz alusivo ao Ano Internacional da Familia que tenho em frente. Tem um coração enorme ao centro que é formado por dezenas de palavras. No meio de tantas encontrei a palavra AMOR. Curioso que nunca tinha ligado ao dito cartaz. Curioso!!!
Afixado por: Pit em maio 26, 2004 06:52 PMQue bom! Fico feliz! ;-))
Afixado por: Maf em maio 27, 2004 04:49 PMPois é, amiga, todos nós, agum dia, entramos "na normalidade dos que amam"... Uma normalidade que tantas vezes nos passa ao lado... Amar... Uma palavra tão simples mas com uma tamanha grandeza e, ao mesmo tempo, complexidade!...
Também eu suspirei, sem saber muito bem porquê, ou até sabendo bem demais...
Fiquei com uma vontade incrível de ler o livro, acho que vai ser a minha próxima aquisição para os tempos livres que se avizinham!!
Ainda assim, fica-me a certeza de que amar ainda é bom e é URGENTE!
bjs
Uma das coisas de que mais gostei no livro, foi a lentidão... como o final pode esperar e como, até chegar a ele, há tempo para ir ficando suspenso amiúde, a baralhar os cenários -- os meus e os do livro.
Afixado por: António em agosto 28, 2004 03:35 PM
