Os dias de Missirá

“Quantas vezes te aconteceu que, em relação aos outros, tenhas estado frequentemente - ou, melhor dizendo, quase sempre - no lugar errado ou no momento errado?

Deixa ver se consigo desenvolver a ideia com suficiente nitidez.

Raras vezes aquilo que nos atrai nos outros - ou no outro, se preferires - chega mais fundo do que aquela superfície confortante das coisas de que se fala quotidianamente. Depois vais-te dando conta de que essas coisas se complicam. Factos, intuições, percepções e suspeitas que interagem, relacionam, destroem e reedificam. O outro espessa-se, alarga-se, ganha outras, e quase sempre insuspeitadas dimensões, bem longe da dicromia inicial.

Não me atreveria a afirmar que é um processo gradual. Descontínuo sim, como quase tudo, aliás.

Se no começo tentaste seduzir - e repara que falo no sentido mais lato - capturar o outro na órbita daquilo que julgaste ser o seu principio de gravitação pessoal, com um perfil, uma palavra deixada cair ou algo de semellhante, mais tarde ou mais cedo és obrigado a constatar que um e outro têm massas distintas, velocidades diferentes. Um peso passado que em puro cálculo de probabilidades vos atira - quando muito - para trajectórias que apenas cíclica ou episodicamente se tornam secantes. Percebes o que quero dizer?

O resultado final é uma mistura de arritmia, assincronismo, topologia irónica e insuspeitada. A partir de um certo grau de convivência os desencontros são mais numerosos e mais pesados do que os encontros. Ou, pondo as coisas de outra maneira, tens uma consciência mais aguda dos momentos de divergência do que dos momentos de convergência. E a própria tomada de consciência dessa realidade, mesmo quando se converte em tentativas de ajustamento, de correcção, acaba por só agravar as coisas. Porque, habituado à tua massa específica, à tua velocidade, à inércia adquirida num tempo pretérito, dificilmente admitirás que os conceitos de certo e de errado, de bem e de mal, pouco ou nada têm a ver com as assincronias entre ti e o outro.”


in Os dias de Missirá

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Publicado por Alexandre em outubro 09, 2003 às 05:38 PM
Arquivado em Literatura Nacional

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