Estórias que fazem a História
João Ubaldo Ribeiro no livro Viva o Povo Brasileiro, fala-nos de personagens que lutaram e que construíram o Brasil.
Conta-nos as suas vidas, os seus feitos, as suas mudanças.
Eu gosto particularmente de livros com finais definidos, em que conhecemos o fim da vida dos personagens e não o fim de apenas um ciclo com a fatídica frase “E viveram felizes para sempre…” (até pela ridicularidade e impossibilidade dessa frase).
No Viva o Povo Brasileiro, descobrimos as pessoas “simples” como “heróis” e aprendemos com as suas estórias, como esta:
“Deve ter sido aí que ele começou a virar criança e, aos poucos, deixou de reclamar com a neta. E não só deixou de reclamar como, um belo dia, chamou-a para uma conversa que ela nunca poderia ter antecipado. Disse a ela que não parecia, mas ele havia chegado a compreender muitas coisas, muitas coisas, entre as quais que a sabedoria da vida tem muitos lados, não um lado só. Por conseguinte, era bem possível que houvesse até muitas sabedorias em vez de uma só, de maneira que ele não estava mais negando o que pensava a neta. Achava errado, mas não negava, o mundo é assim mesmo, cheio de maneiras de ver. Então, sabia ela o que ele ía fazer? Pois lhe diria. Aquele dinheiro que tinha juntado numa vida de trabalho e mais trabalho, era dela, estava enterrado naqueles lugares que ele transcrevera no papel que agora lhe entregava. Tudo era dela, ele estava velho, queria somente ficar ali com sua hortazinha, seu pomarzinho, sua casinha, suas galinhas, seus porquinhos, suas coisinhas, seus brinquedos, seus amigos meninos. Estava velho, bastante velho mesmo, devia ser o sujeito mais velho que ela conhecia, e então o melhor que fazia era permanecer ali mesmo sendo menino, coisa que nunca havia sido e lhe interessava muito, para uma vida completa. E, quanto a ela, agora não tinha mais desculpa para não fazer o que achava que devia fazer, que, aliás, fizesse isso mesmo: o que achava que devia fazer. Era um presente em que ele tinha pensado muito antes de dar a ela e era um presente de grande amor. Não o dinheiro, que ele não tinha ninguém no mundo a não ser ela e, portanto, era sua obrigação cuidar dela direito, pois que ela tampouco tinha alguém por si no mundo. Mas, sim, a liberdade e ser e escolher, coisa para que, pelo menos da parte dele, ela acharia ajuda, embora fosse encontrar dificuldade em todas as outras partes, dificuldade mortal mesmo, dificuldade dura e sem misericórdia. Mas este conselho lhe dava: que não fosse boba, que não confiasse, não confidenciasse e não desistisse com facilidade; que não fosse mentirosa, mas também não imprudente; que não quisesse lutar sempre do mesmo jeito, mas que visse que para cada luta há um jeito próprio, dependendo sempre das circunstâncias; e que gostasse dele, porque ele gostava tanto dela que o coração lhe doía e, se não tinha sido melhor avô, fora porque não soubera, mas tudo o que sabia e procurava aprender tinha feito para ela. Ela gostava dele?”
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