A Condição Humana de André Malraux
Ainda no rescaldo do 11 de Setembro...
Não podia deixar de falar neste livro uma vez que o li na altura do 11 de Setembro. Desde aí penso constantemente nele. Basta ligar a televisão e ouvir que mais um palestiniano se fez explodir num autocarro, e já está a minha cabeça a fazer associações ao Kyo, Katow e Tchen (personagens deste livro).
Portanto, apesar do livro já ser velhinho (foi publicado em 1933) encontra-se cada vez mais actual.
Há personagens muito distintas por isso os temas abordados por cada um são também eles variados (amor, homens vs mulheres, vaidade, cobardia, inteligência, solidão, sofrimento, ideais...) mas une-os o medo e a morte (e o medo da morte). E une-os também a pergunta fatídica: qual o sentido da vida? Respostas... pois, cada um vai encontrando as suas...
Como estamos na data em que estamos, deixo-vos duas pequenas passagens que possam deixar-vos curiosos, mas o livro é muito, muito mais que isto e quanto a mim vale toda a pena.
«Tchen recordou-se de Gisors: "À beira da morte, uma tal paixão aspira transmitir-se...". De súbito, compreendeu. Suan também compreendia:
- Tu queres fazer do terrorismo uma espécie de religião?
A exaltação de Tchen tornava-se maior. Todas as palavras eram vazias, absurdas, impotentes, para exprimir o que queria deles.
- Não uma religião. O sentido da vida. A... posse completa de si próprio. Total. Absoluta. A única. Saber. Não procurar, constantemente, ideias e deveres. Há uma hora que já não sinto coisa alguma de que pesava sobre mim. Estão a ouvir? Nada.
Agitava-o uma tal exaltação que já não procurava convencê-los, senão falando-lhes de si:
- Estou de posse de mim próprio. Mas nem uma ameaça, nem uma angústia, como sempre. Dominado, apertado, como esta mão aperta a outra (apertava-a com toda a força). Ainda não basta, como...
Apanhou do chão um dos bocados de vidro da lanterna quebrada. (...) Com um gesto, enterrou-o na coxa. A sua voz entrecortada estava penetrada de uma certeza selvagem, mas parecia muito mais dominar a sua exaltação do que ser dominado por ela. Nada louco. Os outros dois mal o viam já e, contudo, ele enchia o compartimento. (...)
- Pelos nossos, nada podes fazer de melhor que decidir-te a morrer. Nenhum homem pode ser tão eficaz como aquele que assim escolheu.»
«-... Não acha que é de uma estupidez característica da espécie humana que um homem que só tem uma vida possa perdê-la por uma ideia?
- É muito raro que um homem possa suportar, como hei-de dizer, a sua condição de homem.
Pensou numa das ideias de Kyo: tudo aquilo porque os homens aceitam deixar-se matar, para além do interesse, tende mais ou menos confusamente a justificar essa condição, fundamentando-a na dignidade: cristianismo para o escravo, nação para o cidadão, comunismo para o operário. (...)
- É sempre preciso intoxicarmo-nos: este país com o ópio, o Islão com o haxixe, o Ocidente com a mulher... Talvez o amor seja sobretudo o meio que o ocidental emprega para se libertar da sua condição de homem...»
