A Varanda do Frangipani, Mia Couto
Eu não sou grande adepta da poesia. Prefiro romances, crónicas, contos... mas para mim, o Mia Couto é um poeta, e os seus romances estão inundados de poesia.
“Conheci-o” quando a minha irmã soube que ia para Moçambique. Lemos o Terra Sonâmbula e apaixonámo-nos pela sua escrita. Também li o Vinte e Zinco e O Último Voo do Flamingo.
Gosto especialmente das palavras que ele reinventa, descrevendo uma série de sentimentos ou sensações numa só palavra, que me era desconhecida até então, e que julgo não vir sequer no dicionário.
Agora li A Varanda do Frangipani, e mais uma vez fiquei rendida ao poeta que conta a história de uns velhos abandonados por tudo e por todos, num país abandonado à sua sorte, onde a lei do mais esperto é a que impera.
Não deixem de o descobrir... e aqui fica um pouco de “poesia”:
Pronto. Já escuto as vozes dos que me vêm buscar. Vou fechar este escrito, fechando-me eu nele. Esta é a minha última carta. Antes, já tinha deitado minha voz no silêncio. Agora, calo as mãos. Palavras valem a pena se nos esperam encantamentos. Nem que seja para nos doer como foi meu amor por Vasto. Mas eu, agora, estou incapaz de sentimento. Me impenetrei em mim, ando em aprendizagem de fortaleza. No final de tanta linha já sei a quem deixar esta carta. A Marta Gimo. Foi ela a última pessoa a me escutar. Seja em seus olhos que me despeço da última palavra. Agora, vou sonhar-me.
No início, me inconsolava com este degredo. Para além da enfermaria, não tinha com que desocupar o tempo. De tal maneira que deixei de sonhar. Só os pesadelos me visitavam. Eu estava aleijada desse órgão que segrega as matérias do sonhar. Eu estava doente sem doenças. Sofria dessas maleitas que só Deus padece. Aconteceu assim: primeiro, me acabou o riso; depois, os sonhos; por fim, as palavras. É essa a ordem da tristeza, o modo como o desespero nos encerra num poço húmido. (...)
Foi nesse afundamento que me apaixonei por Vasto. O amor não é o irremediável remédio? Um dia, ele se chegou e me surpreendeu em flagrante lágrima. Me enxugou o rosto. Não sei se conhece o mandado: quem limpa lágrima de mulher fica amarrado em nó de lenço?
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Também gosto muito de Mia Couto. As suas palavras inventadas são a expressão exacta do que nos quer transmitir. Fazem tanto sentido que nos surpreendemos por não as termos ainda descoberto. É um escritor duma "simplicidade" genial.
Afixado por: Maria em março 30, 2004 06:37 PMÉ incrível como a obra deste sigular indivíduo nos emociona. É uma maravilha ler os seus textos. A alma fica lavada e o coração agradece.
beijos para você Mia.
É incrível como a obra deste sigular indivíduo nos emociona. É uma maravilha ler os seus textos. A alma fica lavada e o coração agradece.
beijos para você Mia.
A escrita de Mia Couto é deliciosamente desconcertante. Ao ler o último voo do flamingo deparei-me inesperadamente com a explicação para as suas surpreendentes reinvenções lexicais: " Mas o que se passou só pode ser contado por palavras que ainda não nasceram" refere o tradutor, personagem desnomeada ao longo de toda a obra. Pois bem, esta afirmação leva-me a constatar que a magia dos sentimentos relatos não encontra no vocabulário mais vulgar a sua identificação, é necessário recorrer a um dicionário imaginário onde a realidade e a fantasia coexistem harmoniosamente crentes no ultimo voo do flamingo, para transmitir a magia que abunda no imaginário de Mia. Obrigada pela sua excelência, obrigada pela sua arte, obrigada por partilhar connosco a identidade do povo moçambicano!
Afixado por: Verónica Mateus em novembro 18, 2004 12:42 PM
