Nome a reter: Gonçalo M. Tavares

Acabei de ler Um Homem: Klaus Klump, o mais recente livro do jovem escritor Gonçalo M. Tavares. Foi também o primeiro livro que li, do autor, mas fiquei fã!

Gonçalo M. Tavares já publicou: Livro da Dança, O Senhor Valéry (pelo qual recebeu o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso), O homem ou é tonto ou é mulher, A colher de Samuel Beckett e outros textos (ambos adaptados para Teatro), O Senhor Henri e Um Homem: Klaus Klump. Recebeu ainda o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Investigações.

Um Homem: Klaus Klump, é um livro sobre os Homens, sobre a guerra, sobre a violência e, também sobre o Amor em várias das suas formas. Nas primeiras 10 ou 15 páginas andei meia perdida, a tentar perceber o estilo e a mensagem, julgando até que o livro seria “marado” de mais para os meus gostos... mas logo engrenei na história e foi num ápice que cheguei ao fim.
Espero cativá-los para a sua leitura com o que se segue...

“As mãos nos bolsos de Klaus. Como era estranho aquele seu gesto de esconder as mãos nos bolsos. As mãos e os olhos eram o fundamento da guerra: sem mãos é impossível odiar, odeias pela ponta dos dedos, como se estes fossem o canal habitual e único de uma certa substância química má. As mãos nos bolsos são um processo de educar o ódio, processo lento quando comparado com aquele bem mais forte que é a amputação dos braços. Mas só com as mãos nos bolsos os homens já acalmam.
Com as mãos nos bolsos um homem percebe que não é Deus. Não se chega às coisas. Se tocares no mundo com a cabeça obterás desse toque sentimentos secundários; afastados de uma intensidade mínima a que a existência das mãos te habituou. As mãos tornam-te intenso. O obsceno – isso mesmo -, o obsceno que é o homem que na guerra, mesmo que numa pausa, põe provocadoramente as mãos nos bolsos. Assumir que não se é Deus em momento de guerra acto corajoso e, por estranho que pareça, o único divino. Só os cobardes fingem que são Deus.
Mas por momentos a vida de Klaus perde os seus órgãos máximos do raciocínio que são as mãos: os órgãos especializados nesse instinto primário que é sobreviver: instinto primário e também instinto último alargar um corpo. Com as mãos nos bolsos Klaus não pode deixar de parecer um imbecil, um homem que não pensa.
Claro que as mãos nos bolsos fazem acumular emoções no resto do corpo. Como se os dedos, às escondidas, destapassem algo. Com as mãos nos bolsos sente-se mais, pensa-se menos.
(...)
Dentro da própria roupa as mãos fazem um intervalo entre o tocar na amante e o segurar na lâmina que mata. As mãos são órgãos susceptíveis de se emocionarem. As mãos não terão apenas sentimentos tácteis, mas também sentimentos mais complexos: como a grande tristeza. Supor que há elementos do corpo que não sofrem nem se exaltam, que apenas assistem, parece um equívoco evidente de uma certa anatomia analítica que vê cada bocado de corpo como louco individual, com o seu mundo próprio. Não há nenhum órgão que possas extrair do corpo, mantendo este vivo, de modo a que do organismo expulses apenas as emoções. Só extrairás as emoções quando eliminares por completo o organismo. A última célula que sobrevive ainda sente e provavelmente pensa.”

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Publicado por Mafalda em fevereiro 17, 2004 às 04:00 PM
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Comentários

Gonçalo Tavares é realmente surpeendente. Tive o prazer de ele ter sido meu professor e orientador de estágio, aprendi mais com ele que quase o resto do curso todo ...

Ele vai ser dos grandes nomes da literatura nacional .. sem dúvida.

Afixado por: Mario em novembro 21, 2004 06:43 PM