Edgar Meu amor…
Por favor Edgar não me deixes assim, o que se passa entre nós, porque não telefonaste? Eu aqui à espera feita parva, nem ao cabeleireiro fui com medo que ligasses, fumei oito Mores seguidos, tenho a cabeça tonta de cigarros, já perguntei às Avarias se havia algum problema com o meu número e não há, já tentei entreter-me a pintar as unhas dos pés e borrei tudo, até nos calcanhares pus verniz, até na alcatifa, até no braço da cadeira, não foste ao emprego, não foste ao café, não foste ao clube, o que aconteceu Edgar? não é justo, não parece teu, não me deixes assim, dou voltas à cabeça a ver se percebo e não entendo, ainda ontem aqui vieste jantar ainda ontem me gabaste o ensopado de enguias, ainda ontem, no sofá, lembras-te?
Craig Thompson: Carnet de Voyage
Depois de 'Blankets' (um dos melhores livors de Banda Desenhada que alguma vez li), Craig Thompson viajou durante 3 meses pela Europa e por Marrocos, onde não só promoveu a edição francesa da sua colossal obra-prima (à venda na Fnac portuguesa), como também fez alguma pesquisa para o seu novo livro, 'Habibi', ainda por acabar.
Para esse fim, Thompson levou consigo um pequeno caderno onde pretendia registar alguns apontamentos de viagem. Mas à medida que a solidão do seu dia-a-dia, as saudades de casa e as memórias da sua ex-namorada o atormentavam, Thompson serviu-se das páginas do seu caderno para se purgar dos seus fantasmas.
À conversa com Paul Auster

O escritor norte-americano Paul Auster – cujo último romance, 'A Noite do Oráculo', foi recentemente publicado em Portugal – vem a Lisboa por ocasião da saída do seu romance de 1990, 'A Música do Acaso', agora traduzido para Português.
A Como és Boa
«Eu não quero um bebé.
O Hugo está preparado. Tem mulher, emprego, casa, carro. Falta qualquer coisa. Pensa que é um bebé. Não tem lá muita imaginação.
A verdade é que nós não comunicamos, por isso eu não posso de facto dizer-lhe que não quero um bebé. Nós falamos, claro, falamos naquela estranha linguagem que desenvolvemos com o propósito de evitar a comunicação. Criámos essa não-linguagem. Talvez seja um sinal de que a civilização está a regredir. De qualquer maneira, qualquer coisa está. Qualquer coisa está.
Estes Difíceis Amores
Para ti...
To be or not to be
«Minha querida, se soubesses! Lembras-te da canção do Zé Mário? "O que eu andei p'ra aqui chegar..." Foi quase isso, um caminho longo e penoso, mas fi-lo parado. Três anos vivendo como um autómato cinzento - o que nem é difícil, tantos o fazem... -, apenas a memória a cores fortes. Porque à noite, em casa, no escuro, punha os auscultadores e pintava-nos obsessivamente com a música por moldura. E os quadros amontoavam-se na minha cabeça, tão límpidos como o génio agarotado do teu querido Mozart.
(...) Tocava à campainha, a voz no intercomunicador, riso escondido, "desço ou ainda sobes?" O ainda era tão prometedor...; "subo". O olhar maroto, "estás com muita fome?" Às vezes. A de ti, pelo contrário, gemia sempre alto nas entranhas, à medida que o crepúsculo da sala afagava esse andar de mulher madura, cruel de tão lento, sabendo-me na sombra maravilhada dos seus passos. (...) O sorriso, de tão aberto, substituía convite de mãos e boca. E tu à espera, maliciosa, eu a custo segurando as rédeas do desejo, (...). A cabeça inclinada para trás, o cabelo em liberdade pelo chão, o pescoço, longo e arqueado por solidariedade com os rins, à mercê da minha língua, escondendo gemidos que acabavam por se escapar, para meu alívio e orgulho infantis. Botão a botão, até os dedos se perderem por montes e vales, os teus por perto, às vezes ensinando-lhes o caminho, crispados ao anúncio da carícia desejada; e partindo, ligeiros, a libertar-me também de prisões o corpo, que se juntava à nudez completa e agradecida que vestia a alma. (...) A tua mão distraída, passeando pelo meu peito, cheio de um estranho cansaço, juvenil e impaciente, "estou de rastos e quero mais". Será isso o amor?
